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Quando eu era criança, já lá pelos 8 anos de idade, na hora do almoço, eu estudava de tarde, ia incomodar minha mãe que estava às voltas com o fogão e a comida para o meu pai que chegaria com fome e exigindo variedade de pratos para degustar.
Para me deixar quieto e fazer algo de útil, ela me ensinou a arrumar a mesa, os pratos, os talheres. Outras vezes me mostrava como separar o feijão (naquela época vinha de tudo no meio do feijão). Ou bater a carne do bife com o martelo de ferro, o que pra mim era demais. Mas o que eu gostava mesmo era quando ela fazia guisado de carne temperado e me dava a oportunidade de fechar a massa dos pastéis onde seria colocado o guisado.
Abria uma por uma aquelas massas prontas e redondas que se compram no supermercado, separando cada uma do plástico que as separavam, e as colocando emparelhadas na mesa da cozinha. Molhava a ponta dos dedos num copo de água e passava nas bordas pra dar uma liga, colocava o guisado à vontade, muitasvezes jogando azeitonas descaroçadas pelos cantos, pedaços de ovo cozido, o que mais desse vontade de colocar junto com o guisado no recheio dos pastéis. Depois eu fechava com um garfo. Pastel por pastel. Eu realmente era feliz fazendo isso e sentia um prazer espontâneo e sincero.
Depois minha mãe colocava os pastéis para fritar e eu ficava lá observando e esperando que meu pai chegasse logo para que eu pudesse devorá-los. Não todos, claro. Afinal, somos três irmãos homens e na hora de comer todos ganhavam a mesma quantidade de comida. Pelo menos tínhamos a oportunidade de ter a mesma. E comer tudo o que se colocasse no prato. Algo que aprendi e não consigo desaprender. Até hoje fico triste quando não como tudo que coloquei no prato. Algo na minha consciência diz que é errado. Como se fossem as vozes dos meus antepassados que passaram necessidade falando pela educação que minha mãe me deu na infância.
Me recordo de tudo isso agora quando estou apresentando a trilha sonora do Bucht Cassidy e Sundance Kid pro Lorenzo enquanto troco sua fralda e lipo sua bunda toda cagada. Não existe nada de nojento em trocar fraldas. O Lorenzo já come doce e salgado e bebe sucos e leite e mesmo o fedor sendo cada vez mais forte e a cocozada cada vez mais intensa, nada me provoca asco ou repugnância. Trocrar fraldas é assim. Como fechar pastéis.
Só que ao contrário.´
Marcelo Benvenutti (pai do Lorenzo)
Não, o Lorenzo ainda não aprendeu a caminhar.
Ele balbucia algumas palavras mas nada que seja decifrável. No máximo um "mazá!" porto-alegrense.
Ele já atende pelo nome dele o que é um ótimo presságio e um aprendizado também para os pais, que não caíram na armadilha do apelido e criaram um complexado pro resto da vida. Lorenzo é Lorenzo, não é gordo ou batatinha.
Com a mãe ele faz arte e festa. Com a babá ele dorme ou vai para a pracinha paquerar as meninas mais velhas de um ano de idade. Com o pai ele assiste desenho e futebol e filme de macho. Mas ele também curte um computador.
E foi vendo o pai mexer no computador que ele já destruiu um mouse, por descuido e falta de esperteza do pai. Agora ele assiste tudo de dentro do cercado. Só que esta semana, a semana que ele completa sete meses, ele descobriu que endurecendo as pernas pra frente ele faz uma alavanca para impulsionar os braços e se agarrar com as duas mãos na borda do cercado e tentar alcançar o mouse do computador. Essa mesma força pode fazer com que ele queira dar uma volta fora do cercado. O que provocou espanto no pai e fez ele pensar na mesma hora:
ELE SE MOVIMENTA POR CONTA PRÓPRIA!!!
(continua outra hora que agora estou atrasado para ir pra casa. é a vida de pai babá. aproveitar o máximo que dá para colocar o trabalho em dia. em casa, sem chances)
Sexta de noite. Chego em casa atrasado, Oito e cinco. Já está na hora da Cris, a babá do Lorenzo que faz al igação entre o horário de saída do trabalho do pai e o de entrada da mãe, ir para casa. Lorenzo toma mamadeira enquanto a Cris deixa rolar um cedê desses de músicas infantis. Pergunto para a Cris se ela não sente sono escutando aquilo e ela responde que sim. O Lorenzo também. E adormece.
Depois que a Cris se vai aproveito o momento de cochilo do Lorenzo (vocês acham que ele vai dormir até de manhã, né?) e vou tentar fazer algo para comer. O mês de outubro tem sido tão agitado que mal tivemos tempo para ir ao supermercado repor as compras de comida de adulto. Como nenhum dos dois, pai e mãe, é um exímio cozinheiro (bem de longe), pego uma daquelas sopas de um litro prontas de saquinho. Creme, na verdade. Pois eu sou daqueles que perde tempo lendo o modo de preparo, afinal não sei fazer mesmo, e sigo as instruções para que o preparado fique mais cremoso. Três quartos de água e um de leite. A receita é assim porque o produto é da Nestlé e óbvio que querem incentivar o consumo de leite. Eu sou burro mas não sou dois. Enquanto preparo o creme de ervilha com bacon, diz que tem bacon no creme, vamos ver, abro o congelador, tiro minha Smirnoff de lá e faço um samba de coca-cola com gelo. Nada que um dono de casa deva fazer, claro, mas que deixa a vida bem mais alegre, isso deixa.
Lá pelas nove o Lorenzo acorda. Ele quer brincar no cercado apesar de não saber sentar direito, de cabecear pra frente e quando volta escorrega nos travesseiros que colocamos pra proteger ele e começa a resmungar que quer levantar. Depois fica paralisado como se tivesse viajando em ácido assistindo os bacyardigans, um desenho feito para quem tomou muito cogumelo nos anos setenta, boa parte dos desenhos feitos para bebês são assim. Uns bichos pirados e meio chatos que saem do jardim e vão cantando pelo mundo e pela história mas na verdade não saem de perto de suas casas. O episódio de hoje é quando a hipopótama (existe essa palavra?) se transforma na Cléotacha, uma rainha egípcia que tem que satisfazer os desejos da esfinfe e descobre que o segredo da vida, ou algo que o valha, encher o rio Nilo parece, é dizer Por Favor e Obrigado. Eu já assisti umas três vezes esse desenho. Mas confesso que gosto do desenho da polca do O Minhoco. Vocês sem filhos pequenos não conhecem? Deviam ver que efeito faz quando se toma uma samba de vodca e se brinca com o próprio filho. Como bem disse Johnny Depp, ter duas filha, ele tem duas filhas, em casa é como conviver com dois amigos bêbados o tempo inteiro.
Agora o Lorenzo se apaixonou pela cadelinha, a Duda. Quer pegar ela. Brincamos com a Duda na medida do possível para que ela não machuque o Lorenzo. Só que ele quer pegar ela e apertar. Outro dia mesmo pegou na pata e puxou com força e a coitada saiu esganiçando desesperada. Já estou prevendo quando ela vai começar a fugir dele.
Depos brincamos de levantar o Lorenzo no alto e fazer blóblóbló na barriga dele. Para a mãe e as avós não é aconselhável tal brincadeira. Afinal o malandrinho deve estar chegando perto dos oito quilos e não é muito cômodo levantar um chumbinho para cima e para baixo. Eu faço. Me lembra que faz um ano que não vou na musculação e jogo minha energia acumulada em algo objetivo e saudável. Poderia ter eu sido um boxeador, mas não ia seguir as regras. E ia apanhar. Poderia ter me metido na política, mas não concordaria com quase nada e certamente ficaria feliz em conceder aos outros darem opiniões de vez em quando enquanto eu me sentiria bem em ser um déspota esclarecido e pai dos pobres e oprimidos. Não ia dar certo. Poderia jogar a energia no papel e ser um escritor que é o que sei fazer. Mas, peraí? Eu sou um escritor, Lorenzo. Mas independente de todos os livros que eu possa escrever e de toda a glória que eu possa alcançar, e pretendo, claro, nada vai se aproximar das páginas que estamos escrevendo agora.
Depois chega a hora de limpar a bunda do rapaz. Eu poderia colocar o cedê de músicas infantis. Mas para que fazer isso se nós podemos escutar o Back in Black do ACDC? Eu confesso que o Lorenzo adorou o Back in Blsack, mas não significa muito, pois acredito que se fosse Green Day ele curtiria do mesmo jeito. Enfim, a festa continua, Lorenzo toma mais duas mamadeiras até a hora da mãe chegar e nos encontrar, um cansado e quebrado, e o outro, rabugento e irriquieto.
E não pensem que acabou por aí. Escrevo sábado ao meio-dia mas o espertinho deve ter feito bagunça até as seis da manhã, como quase sempre. Eu só aguentei até as 4 e meia. Tão achando o que? É sexta de noite, gurizada.
Dia de festa na casa do Lorenzo!
Marcelo Benvenutti, pai do Lorenzo.
O rosto muda todo dia. O olhar percebe coisas novas que não podemos imaginar. Cores, sons, objetos. A voz do pai ou da mãe ou de outra pessoa mais chegada tem entonações diferenciadas que provocam as reações mais surpreendentes possíveis.
Cada despertar é uma descoberta. Cada abrir de olhar é um novo dia.
É uma nova obra. É um poema constante sendo desenhado na mente de Lorenzo. Nesse mundo de sonhos em que a vida é mais vida que em qualquer outra fase da vida tudo fascina ou assusta. Não existe muita diferença entre o fascínio e o assombro. Lorenzo é uma página em branco sendo escrita, rabiscada, desenhada, colorida.
Muitas vezes os pais estão cansados. A vida adulta é cheia de deveres exageradamente valorizados. Repleta de desejos obtusos e prazeres momentâneos. Lorenzo vislumbra um pedaço da minha mão e sorri. Agarra a mão. Aperta. Se eu largo, ele reclama. Depois esquece da mão e sorri observando um quadro colorido na parede. Mexe as mãos. Ele quer apertar o quadro. Escuta uma música vindo de algum rádio ou televisão. Quer pegar a música no ar. não consegue. Já esquece de tudo de novo e enfia a mão na boca. A gengiva incomoda. Chupa os dedos. Baba. Tira a mão da boca e se dá conta que tem fome. Ele não chora. Berra. Fica brabo. E berra mais alto ainda. Correndo alguém lhe prepara a mamadeira. Ele abre a boca desesperado e quase engole o bico no primeiro gole. Depois de algumas sugadas, pára, respira fundo e suspira. Depois fecha os olhos e abre para encarar o pai e sorrir deixando escorrer leite pela roupa.
Sua risada navega pelos sonhos derivantes de um oceano sem horizontes chamado vida.
Como é simples a felicidade de Lorenzo.
Como seria simples viver de tão pouco.
A felicidade é um pontinho que de tão pequeno se multiplica por todos os
pontos do universo.
Marcelo Benvenutti - pai do Lorenzo.
QUERIA EU TER MAIS TEMPO
PARA QUE O TEMPO
NÃO ME ABANDONASSE
(Marcelo - pai do Lorenzo)