Cerveja&Fralda

As aventuras de um pai de primeira viagem envolvido com fraldas, mamadeiras, cervejas e muita vontade de escrever.

Cerveja&Fralda

As aventuras de um pai de primeira viagem envolvido com fraldas, mamadeiras, cervejas e muita vontade de escrever.
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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2006, 18

18.05.06

            Lorenzo nasceu no dia 8 de maio de 2006.

        Diz a lenda que homem que é homem não troca fraldas. Eu ainda não troquei. Ainda.

    Dizem que um amante da cerveja e que adora sair de noite e perambular pelos bares e se perder e esquecer do resto do mundo no asfalto da cidade vazia e fria das madrugadas não deveria ser pai .

    Dizem que um homem que jamais manteve um relacionamento estável e duradouro deveria desistir da idéia de criar e educar um filho.

       Dizem muitas outras coisas que devem ou não devem ser cumpridas de acordo com as leis não escritas geralmente aceitas. Eu digo que tudo isso não passa de bobagem.

    Depois de alguns dias de insônia no hospital enquanto a mãe do Lorenzo, meu filho, se recuperava da cesariana no hospital, voltamos para casa. Surgiu a calmaria no horizonte do apartamento da nova família. Sem avós, enfermeiras, amigos e outros menos votados se metendo em como deve ser feito isso ou aquilo. Apenas os pais digerindo informações atrás de informações.

       Diz a lenda, outra, entre os pais, que não existe mais descanso, sono e intimidade em um casal quando surge um filho. Sei que o Lorenzo ainda hoje está completando apenas dez dias fora da barriga da Betine, a mãe. Mas isso não me impede de dizer que nosso sono continua o mesmo. Afinal, sempre fomos insones, noturnos e agitados.

     O Lorenzo tem muita fome. Óbvio que recém-nascidos têm muita fome. Mas ele que é prematuro e nasceu grandinho pruma gestação de 36 semanas e 6 dias, três quilos, está tomando 2 ou 3 vezes mais leite que seria normal para um prematuro recém-nascido. Se nos preocupa isso? Não. Sei que certamente gastaremos mais do que esperávamos com leite em pó, porque a mãe coitada não dá conta da fome do guri. Mas esse é o preço que se paga. Esse é o preço que eu pagaria se estivesse solteiro e saindo como saía antes. Uma noite nos bares da vida compra no mínimo duas latas de NAN da Nestlé, a onipresente na alimentação infantil, que garantiria, por enquanto, um mês de complemento alimentar pro Lorenzo.

        A cesariana para mim durou muito pouco. Fiquei nervoso. Pensei em chorar, mas só quando lembrava de que seria pai dali a alguns minutos e lembrava de meu pai já morto, me apertava o peito e queria que ele estivesse por perto para abraçá-lo. O tempo passa e eu visto a roupa que as auxiliares de enfermagem mandam que eu vista. Enquanto isso, lá dentro da sala de parto, a mãe está sendo raspada e sedada.

        Cinco minutos após eu entrar na sala de parto Lorenzo é puxado lá de dentro da barriga escancarada da mãe todo cinza, melequento, um umbigo grudento a lhe prender ao corpo chapado de drogas hospitalares da mãe. A pediatra o pega no colo, e tenho que confessar que esse guri será bem quisto pelas mulheres, na sala de parto eram ao todo sete, e o único homem além dele era eu, e me chama para irmos para outra sala onde são feita limpeza e os primeiros exames vitais do recém-nascido. Não vou ficar aqui relatando tudo que passa um recém-nascido. Não é isso que interessa.

        Minha preocupação era segurar a mão de meu filho e esperar que seus olhos se abrissem. Enquanto isso tirava fotos para que ele soubesse como era quando nasceu. Até que depois de uma boa meia hora ele abriu os olhos. Abriu os olhos, ainda meio grudentos, e olhou o mundo exterior pela primeira vez. Pela primeira vez olhou nos meus olhos. Pela primeira vez olhou o mundo através dos meus olhos. Nos meus olhos viu toda a minha vida passada e eu vi todo o seu futuro. Todos os seus sonhos. Todas as frustrações. Todas as suas paixões. Toda a sua felicidade e toda a sua tristeza. Nesse momento eu vi que não existiria fralda que eu não trocasse, noite que eu não dormisse ou vida. que eu não vivesse para que meu filho algum dia sentisse o que eu sentia naquele momento. E por incrível que possa parecer, não chorei. Não balbuciei. Não pensei. Uma imensa, gigantesca, infinita paz tomou conta do meu corpo e do meu espírito. Uma paz que nem todas as cervejas do mundo poderiam aplacar. Que nem todas as viagens poderiam desacelerar. Naquele momento fui feliz. E, vocês deveriam saber, a felicidade é um sentimento atemporal. Uma vez que se atinge o ápice da felicidade, toda a dor e tristeza que possam surgir não passam de morfina da alegria. A felicidade é como um vinho que nunca sai do sangue. Como se eu estivesse de novo, solitário, bêbado, dirigindo por uma Porto Alegre vazia e chorando de felicidade por existir e viver aquele momento e estar escutando Ziggy Stardust e exercendo minha liberdade individualista.

        Agradeço à Betine que durante quase 37 semanas carregou este pequeno ser chamado Lorenzo. Sentimento que jamais sentirei, jamais viverei, jamais conhecerei. Fui apenas um espectador desse espetáculo do qual apenas participei do projeto, mas não da execução.

            E agora que já escrevi livros e tive um filho, prometo, não plantarei árvores. Vai que dão minha missão por cumprida, não é?

Marcelo Benvenutti, pai do Lorenzo.
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  • Postado em 16:33:38