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Uma das minhas novas experiências é ter trocado de lado da cidade. Pra quem morou desde que nasceu na zona norte de Porto Alegre, para ser mais preciso no entorno do bairro São João, morar no Menino Deus já é uma grande mudança. Visitar o Zaffari da Getúlio Vargas também. Ainda mais um pouco antes dele fechar.
Bom, dia desses fui-me para o supermercado lá pelas nove e meia da noite. Na verdade eu ia na Panvel, onde sempre tudo é mais caro, mas enfim, foi onde consegui encontrar o tal bico para mamadeiras Nuk que evita cólicas, não solta as tiras e não tem cheiro. Esse bico é recomendado para prematuros com preguiça de mamar, caso do Lorenzo. Na verdade o caso do Lorenzo é fome mesmo. Mas isso eu detalho melhor outra hora.
Depois entrei no super propriamente dito para comprar água e coca-cola, é, a ex-grávida dá seus golinhos de coca, apesar das recomendações contrárias do manual de amamentação, mas, cacete, não fumar, não beber e ainda não poder tomar um golinho de coca é demais! Era nosso primeiro fim de semana em casa com o Lorenzo e na segunda chegaria a babá, mais uma pessoa a conviver nas tarde da casa e dar uma força para a mãe acabada de tanto tirar leite.
Perto de fechar o supermercado é dominado por dois tipos de pessoas. Os coroas e velhos solteiros, viúvos ou divorciados, homens, as mulheres nas mesmas condições aparecem mais cedo, afinal elas querem assistir a novela das seis e os noticiários, se não for o roletrando do Silvio Santos, e os casais esquisitos. Esquisito é uma expressão minha. Mas na real são aqueles tipinhos músico e artista plástica ou designer alternativo e esteticista pós qualquer coisa que se forma por geração espontânea na Cidade Baixa, Menino Deus e Bomfim.
Os velhos e coroas compram algumas latinhas de cerveja na oferta e alguma comida pronta ou um congelado que seja fácil de fazer. Geralmente se demoram olhando as prateleiras, mão nas costas, observando as mulheres dos esquisitos e as funcionárias do super, talvez sorrindo, bolinando em todas as frutas e quase sempre não comprando nenhuma. O que os casais de esquisitos compram não difere muito dos coroas. O que difere é que os esquisitos conversam e falam alto. Quando não acontece de, o que é bem comum, um dos dois do casal falar por ele e pelo outro.
Eu sempre demoro mais na seção dos frios e das bebidas, não me perguntem o porquê, talvez eu saiba mas não queira admitir aquilo que me toca. Pois estava eu pensando se gastava dez centavos a mais e comprava meia dúzia de long necks de Brahma Extra ou seis latinhas de Skol quando uma esquisita falou bem alto para um esquisito.
- Olha só. Uma vez era o dobro do preço!
- É mesmo. E nos bares é bem mais.
Fui olhar sobre o que eles estavam falando e vi que as cervejas uruguaias Pilsen e Patrícia estavam na oferta por 3,98 a garrafa de litro. Pensei em pegar uma de cada mas logo decidi por duas de cada. É uma boa desculpa para se tomar um litro em casa sem culpa, afinal, cerveja em garrafa aberta fica choca e isso é um pecado quase tão horrível quanto bater na mãe. Variar de marca de cerveja também é uma boa saída para a mesmice. É como mudar o caminho que se faz quando se vai para um local que se vai seguido. Experimentem. Muita coisa na vida de muita gente mudou por conta de uma quadra a mais. Pensar isso sempre me deixa mais alegre. Provoca meus instintos de deboche ao livre-arbítrio.
Cheguei em casa feliz, a atendente da Panvel encontrou o bico de mamadeiras que procurávamos para que o Lorenzo pudesse se alimentar melhor e aprender a sugar com mais força. Deixei a Patrícia para hoje, sexta-feira. Enquanto a mãe está amamentando carrego este pesado fardo de beber sozinho em casa.
Tão achando que é fácil a vida de um pai de primeira viagem, é?
Marcelo Benvenutti, pai do Lorenzo.
(segunda de noite tem mais)