Cerveja&Fralda

As aventuras de um pai de primeira viagem envolvido com fraldas, mamadeiras, cervejas e muita vontade de escrever.

Cerveja&Fralda

As aventuras de um pai de primeira viagem envolvido com fraldas, mamadeiras, cervejas e muita vontade de escrever.
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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2006, 30

30.05.06

As Horas

              Não. 

             Não estou falando sobre o longa-metragem As Horas. Mas se quiserem podem colocar qualquer trilha sonora do John Williams. O cara é bom mesmo. Eu escrevo escutando Otis Redding que também foi injustiçado pelo personagem do artigo de hoje. O tempo.

             Sabem aquele personagem de programa humorístico que é uma gorda esquisita debochando das neo-pobres? Pois é. Aquela que diz isso não te pertence maaais! Então. Hoje o Lorenzo completou três semanas de vida. Parece pouco, mas essas três semanas voaram. Me dei conta como voa o tempo quando hoje conversei com um amigo leitor deste blogue e ele falou que sua filha estava com dois anos e cinco meses. Dois anos e cinco meses! Ontem mesmo estávamos eu e Ernesto, codinome que uso prum amigo meu, no bar que o leitor era proprietário e rimos de sua cara quando pedimos o telefone pra daqui uns quinze anos ligarmos pra filha dele. Pois é, não é? Isso foi ontem, cara! E ela já tem mais de dois anos.

              E eu sou pai e estou aqui escrevendo madrugada adentro com uma chuvarada gelada inundando Porto Alegre. Hoje seria uma daquelas noites que sairia da Lancheria (do Parque, né?) e encontraria o Zanella (esse habitante fantasma de Porto Alegre) e iríamos encher o saco dos outros num show de uma banda porto-alegrense que a gente não daria a mínima, afinal estaríamos bêbados. Mas isso foi quando mesmo? Menos de dois anos atrás. E o tempo passou.

              Hoje o Lorenzo me ensinou algo novo. Depois que o limpei todo e ia trocar a roupa onde ele tinha mijado em tudo, eis que o moço me presenteia com a maior xixizama. Não acertou em mim porque ele é ainda muito pequeno. Mas mijou no próprio peito, nas pernas, ficou nadando no xixi. Nado de costas no xixi. Tive que apelar pros universitários! Acordei a Betine que estava dormindo pra perguntar como eu limpava ele sem ter que dar banho de novo. Usei um troço laranja ou rosa da Johnson, não vou lá no quarto agora ver qualé porque o Otis ta pegando nos fones e vai que o Lorenzo acorda e adeus inspiração do texto, no algodão e tive que limpar o rapaz urrando de frio e fome. Coitado. Comigo não tem chance dele ser mimado. É cada uma! Isso que depois de tomar a mamadeira ele ficou viajando na maionese olhando pros bichinhos da turminha do ursinho Pooh, pro ventilador de teto, pra cortina, sei lá proquê. Só que eu, pra não dormir e me entreter ligo o rádio. Pra passar o tempo que o Lorenzo usa conhecendo aquilo que eu nem faço idéia que existe. Afinal, eu não lembro o que fazia quando tinha a idade dele, assim como nenhum de nós lembra. E nem me venham com regressão que eu viro macaco.

             Esse mesmo tempo que eu, insone, já aproveitava todo errado antes. Dormia depois do almoço, na mesa do escritório onde trabalho (ainda faço isso de vez em quando), dormia quando chegava em casa, dormia mais tarde, na madrugada, que eu não consigo dormir cedo. Nunca consegui. E temo que agora o Lorenzo traga dentro de seus genes minha relutância em dormir. Ele boceja. Resmunga. Mama de olhos fechados. Escuta o som da rádio. Faz de tudo. Mas não é muito a fim de dormir. Claro que estou exagerando para uma criança de vinte e poucos dias, mas é como se ele estivesse olhando pra minha cara e dizendo. Teu tempo de assistir tv atirado no sofá, de ler demoradamente um livro no banheiro, de escrever enlouquecido com um copo de vinho ou cerveja do lado? Isso não te pertence mais. É.

              Não pertence mesmo. 

              Mas acredito que todos aqueles que decidem ser pai ou acontecem, sim, ainda tem pais que acontecem na classe média, tenham conscientes que uma nova adaptação do tempo deve ser feita. E que essa adaptação não precisa necessariamente resultar em cortes absurdos ou restrições para a rotina dos pais. Basta que esses saibam adaptar seus afazeres, e prazeres também, aos horários do novo amigo que veio para ficar. Afinal, pais que não reservam um tempo para fazer suas coisas, suas individualidades, viajarem na batatinha, ficarão neuróticos, psicóticos e altamente estressados. Depois a criança cresce e tem que ouvir olha o que eu fiz por ti ou trabalhei como um condenado sem direito a dormir pra tu me fazer isso, blábláblá. Tsc Tsc Tsc.

              Espero nunca fazer isso. Imploro a mim mesmo para não fazer isso com o Lorenzo. Faço o que faço, mesmo que perdendo a paciência muitas vezes, ou deixando de fazer o que gostaria de estar fazendo, porque eu quero. Porque quando ele me olha de lado no meu ombro e fixa o olhar em mim, mesmo que os psicólogos ou médicos ou filhos da puta qualquer digam o contrário, que ele nem está olhando pra mim, tudo fica mais fácil, até mesmo saber que posso conseguir ultrapassar o medo atrelado a esse sentimento todo. O medo natural de amar. Esse medo que nos torna cínicos e sarcásticos. Esse medo que me assombra. No olhar de meu filho enxergo o meu próprio reflexo quando era uma criança frágil e cheia de instintos primitivos e livres. E revivo tudo isso com ele. Eu que não deixei de ser criança, e talvez nunca deixe, tenho a oportunidade de, por alguns míseros instantes, voltar para minha felicidade eterna e insuperável. Voltar a ser livre como os sonhos de uma criança. Quem vive assim, penso eu, encontra o algo inexplicável da vida. Que eu chamo assim mesmo. De algo. 

                                                                           Marcelo Benvenutti, pai do Lorenzo.

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  • Postado em 16:21:48