Cerveja&Fralda

As aventuras de um pai de primeira viagem envolvido com fraldas, mamadeiras, cervejas e muita vontade de escrever.

Cerveja&Fralda

As aventuras de um pai de primeira viagem envolvido com fraldas, mamadeiras, cervejas e muita vontade de escrever.
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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2006, 27

26.06.06

CÓLICAS MALVADAS

Nas últimas duas semanad eu e a mãe do Lorenzo nos envolvemos na empreitada de combater as cólicas do pequeno homenzinho. Hoje, toc toc toc na madeira, parece que estamos conseguindo começar a vencê-la. Como não estou a fim de escrever sobre cólicas, ainda não, tomei um tempo de sono entre uma mamada e outra do Lorenzo e escrevi a pequena crônica a seguir. Espero que gostem. Eu gostei. Abraços!!!

 

O MEDO DE ATRAVESSAR A RUA

 

Lá por meados dos anos 70 meu pai tinha um escritório no centro de Porto Alegre.  De vez em quando me levava para lá depois do almoço, naquela época os pais de classe média ainda tinham tempo para almoçar em casa, e as mães, donas de casa, tempo para fazer um almoço e esperar seus maridos. Uma vez ou outra dessas ele arranjava uma brecha no
trabalho pra dar uma volta pelo centro e me levava junto para passear.

Certa vez caminhávamos pela Rua da Praia em direção à Praça da Alfândega, aquele mar de gente indo e vindo, os berros, gritos, barulho de massa humana se movimentando, inundavam minha mente de criança e, entretido por essa montanha de informações, me vi perdido de meu pai. Olhava de baixo, afinal deveria ter meus cinco anos de idade, para cima e procurava meu pai. Rodeava pelo calçamento repetitivo da Praça da Alfândega e não conseguia encontrar a mão segura de meu pai entre aquela multidão de dedos e unhas e vozes e pernas. Quando balbuciava um pequeno choro e estava prestes a gritar de medo e desespero, uma mão magra e enrugada me tocou no cotovelo e me puxou delicadamente.

O dono da mão me dirigiu a palavra. Que foi guri? Me perguntou.
Como eu não respondia, assustado tanto por estar perdido quanto pela pergunta do estranho, ele continuou. Está perdido de teu pai?
Respondi balançando a cabeça afirmativamente.
Ele me pediu para sentar e olhou em volta acompanhando meu olhar pedinte.
Eu sei onde está teu pai, guri. Como é teu nome?
Marcelo, respondi. E o teu?
O meu? O velho falou entre uma gargalhada. Mário. Depois falou.
Teu pai está ali no café do outro lado, Marcelo.
Eu olhava por entre a multidão e não enxergava café, não enxergava pai, não enxergava nada.
Não estou vendo.
Pois pare e observe bem. Esqueça todo mundo que tem na frente e apenas sinta. Sinta tua vontade.
Eu sentei no banco junto a ele e observei bem, com toda a atenção do meu mundo. Meu olhar foi navegando por entre os espaços que os braços e pernas deixavam e depois de alguns instantes, ludibriado por minha própria vontade, vi meu pai de pé, do outro lado da rua, acendendo um cigarro e conversando com um outro homem na porta de um café.

Perplexo me voltei para o velho homem que com as mãos amareladas
fumva um cigarro de odor forte e recostava uma das mãos sobre um dos joelhos dobrado sobre a outra perna. Ele então me falou.
Preste atenção, Marcelo. Cada vez que estiver perdido de teu pai e quiser encontrá-lo, se concentre bem e deixe que a vontade te faça achá-lo. Nunca falha. Na minha inocência perguntei, como toda criança lascaria com toda sinceridade.
Como tu sabe? Sabe onde tá teu pai?
Sei.
Aonde? Lá no café também? Ele deve ser bem velho.
E é. Ele está sentado num banco do outro lado.
Não estou vendo banco nenhum.
E não vai ver mesmo, guri. Só eu enxergo. Mas sei que ele está lá. E está me esperando encontrá-lo agora que estou aqui perdido, fumando meu cigarro e conversando contigo. Eu também tenho medo e espero que ele me encontre.


Na hora não me importei em entender o que o velho tinha dito.
Meu pai tinha me enxergado e vinha na minha direção.
Levantei do banco e atravessei a praça. Abanei para o velho e fui embora.
Hoje me lembro desse dia e daquele velho e observo por entre a multidão.
Não vejo meu pai, claro. Mas sei que ele está lá. Assim como um dia espero que meu filho sente em um banco de praça, se praças ainda existirem, e me observe no bar do outro lado da rua. Eu estarei lá tomando uma cerveja e esperando o momento para buscá-lo e fazer com que perca o medo de atravessar a rua.

 

                                                                           Marcelo Benvenutti, pai do Lorenzo.

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  • Postado em 23:27:30