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O Lorenzo fala éééé. O Lorenzo fala aaaaa. O Lorenzo mexe as sobrancelhas, depois fecha os olhos e abre a boca e faz iiiiéééaaa.
Passam das quatro da manhã, o Lorenzo continua. Aaaaaa. Éééééé. Óóóóó. Iné.
Quatro horas da manhã não é hora de brincar - Quatro horas da manhã é hora de dormir - Lorenzo pára de brincar - Lorenzo vai dormir
O Lorenzo não dorme.
Ele quer suco de bergamota. Quer mais leite. Ele mexe os braços, se agita. Ele vomita. Ele fica vermelho e se caga todo. Faz festa quando fica pelado e trocam toda a roupa. Mas faz frio, Lorenzo. E a mãe chegou cansada do trabalho. E o pai tem que acordar de manhã e tá todo estropiado.
Liga a televisão, pai. Ele não fala, mas pensa. Não, Lorenzo. Nada de assistir Tarantino essa hora da madrugada. O pai se irrita. A mãe berra. Os dois se xingam. E o Lorenzo ri de festa. O Lorenzo se diverte e quer colocar tudo na boca. Enfia a mão inteira na boca.
O pai desiste. A mãe aguenta. Até as 6 da manhã. Enfim, sentindo a proximidade do amanhecer, Lorenzo dá por encerrada a noitada. Hora de ir pra casa. As cadeiras estão em cima das mesas, os garçons carrancudos, os flanelinhas roubararm o que tinham que roubar e se retiraram, os mendigos se reviram em seus cobertores fétidos embaixo das marquises. Certamente todos eles agora riem do pai e da mãe, Lorenzo. Certamente eles gargalham.
Tudo bem, Lorenzo. Vamos fingir que estamos na rua, bebendo e cantando e dançando. E que nos embebedamos de Lorenzo. A diferença da ressaca, filho, é que no outro dia não temos opção. Vamos ter que encher a cara de novo.
E o Lorenzo canta pro mundo inteiro acordar e ele dormir.