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O Lorenzo é um menino bem calmo até. Só berra, mas berra mesmo, quando tem fome. A cada 3 ou 4 horas ele tem fome. Como a mãe não tem tempo e nem leite suficiente para amainar a sede do moço, é muita fome, fome desesperada, fome ensandecida de brabeza, temos que apelar para o leite em pó.
Começamos usando uma mamadeira menor e um bico feito para dificultar a sucção e que tenta evitar as cólicas. O Lorenzo veio antes do tempo e, dizem, como todo prematuro tem preguiça de mamar no peito, o que juntando com a personalidade inerente do guri, que já deu pra notar, é calmo quase o tempo todo, mas quanto fica brabo, fica muito brabo e briga e soqueia o peito da mãe, não nos resta ter paciência e tentar educar matando a fome dele o mais rápido que for possível sem que isso possa lhe trazer problemas como cólicas, vômitos ou soluços em demasia.
Quando eu dou a mamadeira pra ele, ligo o rádio, troco de estação, coloco um cedê, ainda não dá pra trazer ele pra sala fria então esqueço a possibilidade de assistir um filme para me entreter e me manter acordado, e tento não me irritar. Tento.
Dia desses, me irritei, o que é normal, apesar das reclamações normais da mãe com minha impaciência. Cheguei do trabalho e destruído pelo cansaço e o sono me apaguei na cama e fui acordado a meia-noite com a fome do Lorenzo. Passadas mais de duas horas a fome dele ainda não estava aplacada. E a minha estava no auge, afinal meus 90 quilos pediam nutrientes depois de mais de 14 horas sem comer nada. Mas mesmo com toda essa explosão de raiva, depois acabo me rendendo.
Me rendo quando o coloco no ombro e ele perde o olhar me observando enquanto espera um arroto ou uma golfada de leite na minha camiseta. Me rendo porque amo essa figurinha e controlo minha ansiedade em que ele possa se comunicar melhor comigo. Me entrego mesmo cansado e irritado porque a paternidade mais que prover o filho de alimento, de moradia, de saúde, coisa que em países menos corruptos seria segurada pelos impostos que todos nós pagamos, mais os pobres que os ricos, acreditem, por mais que a classe média morra em sua cegueira diária e escrota, é alimentar o filho de intangibilidades.
Intangibilidades que não são medíveis. Que não podem ser estabelecidas por leis, por tribunais, disputadas por advogados, defendidas por médicos, psicólogos ou psiquiatras. A intangibilidade do amor ultrapassa até mesmo a distância, o tempo e o medo disfarçado de segurança profissional. Não somos seguros materialmente. Nunca seremos. Esqueçam essa parte da vida. Tento manter meu conforto o máximo possível de acordo com a minha paciência. Mas prover meu espírito de sentimentos como sinto quando abraço o Lorenzo é impensável. O sentimento de tê-lo ao meu lado é eterno. Posso estar aqui escrevendo e sentindo tudo de novo. É amor. É amor quando amamos alguém e mesmo sabendo que não estamos o tempo inteiro juntos, estamos juntos. O amor de pais e filhos é um uma paixão nova e que a cada dia estou aprendendo como é linda, pura e verdadeiramente bela. Dá até medo dizer que é o mais belo de todos os sentimentos.
Dá até medo dizer que sempre chorei vendo filmes de amor entre pais e filhos e nunca tive a mesma sensação quando assisti a filmes românticos de amor entre homem e mulher. Não que eu não seja romântico. Continuo sendo romântico, mesmo que tente manter uma falsa e mal disfarçada fama de mau, e burro. Agora mesmo fiquei assistindo um filme bem fraquinho e me emocionei. Um dia muito especial. Ou algo parecido. Ta certo que a mãe do filme era a Michelle Pfeiffer, que apesar de linda é uma atriz mediana, e o pai era o George Clooney, que como a conta a piada do cara que chegou em casa e pegou a mulher transando com outro e quando ia começar uma pancadaria o cara se virou e era o George Clooney e o corno comentou: Ah, é o George Clooney! Virou as costas e foi pra sala despreocupado, mas sempre chorei quando vi o amor de pais por filhos. Como nesse filmezinho fraco e bobo.
É o mesmo choro que me vence no final do Poderoso Chefão 3.
Mas não me venham com O Campeão.
Tenho um lado descendente de italiano, mas não chego a tanto.
Ps.: Era para falar mais sobre mamadeiras, mas o assunto descambou para cinema. E aí o perigo de eu errar e destrambelhar é bem maior. Ainda mais se daqui a pouco passar de novo Butch Cassidy e Sundance Kid. Que não tem nada a ver com paternidade. Mas que me deixa bem feliz. Também.
Ps2.: Esperando Lorenzo acordar com fome, o copo de cervejinha acabando, quase 3 da manhã, a Betine bela adormecendo, vou ver se combato a insônia assisto algum seriado retardado na tv a cabo.
Boa noite!!!
Marcelo Benvenutti, pai do Lorenzo.
criado por mutante.voy
02:56:23