Cerveja&Fralda

As aventuras de um pai de primeira viagem envolvido com fraldas, mamadeiras, cervejas e muita vontade de escrever.

Cerveja&Fralda

As aventuras de um pai de primeira viagem envolvido com fraldas, mamadeiras, cervejas e muita vontade de escrever.
<  Maio 2008  >
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Terra Blog

25.05.06

As Tão Famosas Fraldas

              Pois o maior dos mitos que cerca a paternidade, e a masculinidade aí incluída, é a troca de fraldas. Quanto você escuta uma mãe, nesse papo bem mais mulher que mãe, falando em como o pai de seu filho, seu marido, namorado ou seja lá o que for que eles combinaram se tratar, cuida do rebento, logo vem a afirmação. Ele até troca as fraldas! E um sorriso sincero e orgulhoso se forma no rosto da mãe em questão. Vitória.

            Então, como dizem os paulistanos, não é bem assim, mano. Cês tem que se ligar no seguinte. Agora já falando por experiência, eu acredito que trocar a fralda é a maior barbada. O Lorenzo dorme bastante como um recém-nascido em formação. Quando acorda, antes de urrar de fome, a gente troca a fralda dele. Como ele resolveu nascer num desses que dizem vai ser o inverno mais frio dos últimos tempos, o abrir de botões de roupas e tirar de calças é mais demorado que a troca de fralda propriamente dita. Passada a fácil inicial do mecônio, aquele cocozinho chiclete e sem cheiro das reservas que ele tinha na barriga, começa a cocozeira propriamente dita. Fedorenta e espalhafatosa. E a xixizeira do pinto duro pra todos os lados da roupa. Tudo isso é normal. Para a roupa tem uma invenção moderna que a classe média não tem do que reclamar. Máquina de lavar roupas.

              Quando chega na parte das fraldas, o cara abre o lacre da caixinha de surpresas, que não tem surpresa nenhuma, a não ser que a criança esteja tomando muito leite em pó, que causa um atraso no cagar, quem não for “nojento” pare de ler o texto e não me encha depois com papos do tipo “ai, que nojo”, pais não têm direito a tais frescuras. O que tem do lado de dentro da fralda é uma merdalhada esparramada e bem fedorenta.


              Começando (adendo, tá tocando Wolfmother e depois Jet na MTV agora, bons sons, dá vontade de fazer barulho e dançar, mas ainda não vou fazer isso, pois a Betine descansa no quarto e o Lorenzo ainda não se manifestou na madrugada gelada. A merda, olha ela aí de novo, é que acabou o vinho e tem dias que é um saco não ter um álcool no corpo, mas fazer o quê, né? Na hora de fazer foi bom.), limpo o grosso da merda com a parte de cima da fralda que estiver sequinha. Assim economizo papel umedecido que é caro e detona os orçamentos familiares. Depois com apenas uma folhinha, com o Lorenzo ainda rola fazer assim, limpo o resto entre o saco, coxas, essas coisas. Podem acreditar que no futuro ele vai ter vergonha de saber que a mãe fazia isso. O pai já vai ser diferente. Vai comentar que ele era sacudo como o velho. Depois de tudo limpo, passamos uma pomadinha pro moço não se assar entre as partes, que é bem incômodo e atrapalha a vida da criança e dos pais insones. Arrematamos tudo com a fralda nova, o Lorenzo ainda ta no tamanho RN, coisa que não prevíamos, logo já tivemos que repor algumas fraldas que ganhamos dos amigos e das famílias por conta da prematuridade do guri. Fecha-se a fralda retirando a proteção do adesivo lateral e ensacando bem o piá. Depois coloca-se a roupa de inverno antes que ele comece a espirrar e ter soluços, algo bem normal e que os pais não devem se assustar. Recém-nascido espirra e soluça mais que o comum.


             Imaginem como era a operação acima quando a maioria de nós nasceu? Fraldas de panos que tinham que ser lavadas todos os dias. Apetrechos para segurarem as fraldas. Roupas sujas antes do tempo. Tempo perdido lavando roupa no braço, olhem pros braços de muitas mulheres com mais de cinqüenta ou sessenta de anos que foram donas de casa e mães e verão que ainda existe uma força incomum neles. As mulheres criavam ombro fazendo essa musculação diária. Acabavam ficando com o visual daquelas matronas de filmes italianos do Neo-Realismo. Pensem nisso quando resmungarem das trocas de fraldas e agradeçam por terem nascido no final do século vinte em famílias de classe média que as abastecem dos apetrechos tecnológicos que facilitam nossas vidas. 


              E pensem que a modernidade criou essa espécie de homem não lá muito homem como nas antigas. Ele abdica dos bares e dos amigos bebuns. Joga de lado a vida pregressa e se atira em curtir esses anos de paternidade com toda a intensidade que lhe for possível. Ele não está perdendo nada. Os amigos que forem amigos mesmo irão respeitar essa época de sua vida e estarão esperando por ele de braços abertos quando a felicidade paterna amainar e eles saírem da catarse avassaladora que é experimentar a sensação de amar alguém tão pequenino que tem no olhar a pureza que ele não encontra nos adultos ou mesmo em crianças menores. Um olhar sincero e verdadeiro que não me atrevo a descrever. Aproveitem bem essa época como eu estou aproveitando. E esqueçam das imundícies das fraldas. Muitos de vocês já fizeram coisas muito mais nojentas. E muitas delas nem foram por amor, não é? 


                                                                          Marcelo Benvenutti, pai do Lorenzo. 
                                                                         (próximo capítulo: a hora de mamar)

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 10:15:13
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